Vladímir Ilich Uliánov LENINE
Que fazer?
Problemas candentes do nosso
movimento
IV
O TRABALHO ARTESANAL DOS ECONOMISTAS E A ORGANIZAÇOM DOS REVOLUCIONÁRIOS
As afirmaçons da Rab. Dielo examinadas acima, quando di que a luita económica é o meio de agitaçom política mais amplamente aplicável, que a nossa tarefa consiste agora em imprimir à própria luita económica um carácter político, etc., reflectem umha concepçom estreita das nossas tarefas, nom só no terreno político mas também no de organizaçom. Para a «luita económica contra os patrons e o governo» é absolutamente desnecessária umha organizaçom centralizada para toda a Rússia (que, por isso mesmo, nom pode formar-se no decorrer de tal luta), umha organizaçom que reúna num único impulso comum todas as manifestaçons de oposiçom política, de protesto e de indignaçom, umha organizaçom formada por revolucionários profissionais e dirigida por verdadeiros chefes políticos de todo o povo. E isto compreende-se. O carácter da estrutura de qualquer instituiçom é determinado, natural e inevitavelmente, polo conteúdo da actividade dessa instituiçom. Por isso, a Rab. Dielo, com as afirmaçons que examinamos anteriormente, consagra e legitima nom só a estreiteza da actividade política, mas também a estreiteza do trabalho de organizaçom. E neste caso, como em todos, é um órgao de imprensa cuja consciência se inclina perante a espontaneidade. E, contudo, o prosternar-se perante formas de organizaçom que surgem espontaneamente, o nom ter consciência de como é estreito e primitivo o nosso trabalho de organizaçom, o nom ver até que ponto somos ainda «artesaos» neste importante domínio, a falta desta consciência, digo, é umha verdadeira doença do nosso movimento. Nom é, evidentemente, umha doença própria da decadência, mas do crescimento. Mas precisamente agora, quando a vaga da indignaçom espontánea nos envolve, por assim dizer, a nós dirigentes e organizadores do movimento, é particularmente necessária a luita mais intransigente contra toda a defesa do atraso, contra toda a legitimizaçom da estreiteza de vistas neste sentido; é particularmente necessário despertar em quantos participam ou se propom participar no trabalho prático o descontentamento polo trabalho artesanal que reina entre nós e a decisom inquebrantável de nos desembaraçarmos dele.
a) O que é o trabalho artesanal?
Tentemos responder a esta pergunta esboçando em poucas palavras um quadro da actividade de um círculo social-democrata típico dos anos 1894-1901. Assinalamos já a atracçom geral da juventude estudantil daquele período polo marxismo. Claro que esta atracçom nom visava só, nem sequer tanto, o marxismo como teoria, mas como resposta à pergunta: «Que fazer?», como apelo a avançar contra o inimigo. E os novos combatentes avançavam com umha preparaçom e um equipamento extraordinariamente primitivos. Em muitíssimos casos quase que nom tinham equipamento e faltava-lhes totalmente a preparaçom. lam para a guerra como verdadeiros mujiques que acabam de deixar o arado, armados apenas com simples paus. Sem nengumha ligaçom com os velhos militantes do movimento, sem nengumha relaçom com os círculos de outras localidades ou mesmo com os de outros pontos da cidade (ou de outros estabelecimentos de ensino), sem qualquer organizaçom das diferentes partes do trabalho revolucionário, sem nengum plano sistemático de acçom para um período mais ou menos prolongado, um círculo de estudantes entra em contacto com operários e começa a trabalhar. Gradualmente desenvolve umha propaganda e umha agitaçom cada vez mais vasta e, polo facto da sua intervençom, atrai a simpatia de sectores operários bastante amplos, a simpatia de umha parte da sociedade instruída, que fornece dinheiro e pom à disposiçom do «Comité» novos e novos grupos de jovens. O prestígio do comité (ou da uniom de luta) cresce, cresce a amplitude do seu campo de acçom e vai alargando a sua actividade de umha maneira completamente espontánea: as mesmas pessoas que, um ano ou alguns meses antes, intervinham em círculos de estudantes e resolviam a questom «Para onde ir?», que estabeleciam e mantinham relaçons com os operários, compunham e publicavam folhas volantes, estabelecem relaçons com outros grupos de revolucionários, arranjam literatura, iniciam o trabalho da ediçom de um jornal local, começam a falar em organizar umha manifestaçom e por fim passam às operaçons militares abertas (operaçons militares abertas que podem ser, segundo as circunstáncias, a primeira folha volante de agitaçom, o primeiro número de um jornal, a primeira manifestaçom. De umha maneira geral, estas operaçons conduzem, logo de início, a um fracasso imediato e completo. Imediato e completo porque estas operaçons militares nom som o resultado de um plano sistemático, bem meditado e minuciosamente preparado, de umha luita prolongada e tenaz, mas, simplesmente, o crescimento espontáneo de um trabalho de círculo, feito de acordo com a tradiçom; porque a polícia, como é natural, conhecia quase sempre todos os principais dirigentes do movimento local, que já tinham «dado que falar» nos bancos da Universidade, e só aguardava o momento mais propício para lançar a rede, deixando de propósito o grupo crescer e alargar-se para ter um corpus delicti tangível, e deixando de cada vez, propositadamente, alguns indivíduos dela conhecidos, como «semente» (expressom técnica que empregam, tanto quanto sei, tanto os nossos como os gendarmes). Nom se pode deixar de comparar esta guerra a umha marcha de bandos de camponeses armados de paus contra um exército moderno. E só se pode admirar a vitalidade de um movimento que se alargou, cresceu e obteve vitórias apesar da completa falta de preparaçom dos combatentes. É certo que, do ponto de vista histórico, o carácter primitivo do equipamento era nom só inevitável ao princípio, mas mesmo legítimo, como umha das condiçons que permitia atrair grande quantidade de combatentes. Mas quando começárom as operaçons militares sérias (e começárom já na realidade com as greves do Verao de 1896), as deficiências da nossa organizaçom de combate figérom-se sentir cada vez mais. Depois do primeiro momento de surpresa, depois de ter cometido umha série de erros (como dirigir-se à opiniom pública contando os malefícios dos socialistas ou deportar para os centros industriais da província operários das capitais), o governo nom tardou a adaptar-se às novas condiçons da luita e soube colocar nos pontos convenientes os seus destacamentos de provocadores, de espions e de gendarmes providos de todos os meios modernos. As prisons tornárom-se tam freqüentes, estendêrom-se a umha tal quantidade de pessoas, varrêrom a tal ponto os círculos locais, que a massa operária ficava literalmente sem dirigentes, o movimento adquiria um carácter esporádico incrível e era absolutamente impossível estabelecer qualquer continuidade ou coordenaçom no trabalho. A extraordinária dispersom dos militantes locais, a composiçom fortuita dos círculos, a falta de preparaçom e a estreiteza de vistas no que se refere às questons teóricas, políticas e de organizaçom eram a conseqüência inevitável das condiçons descritas. As cousas chegárom a tal extremo que, em alguns locais, os operários, vendo a nossa falta de firmeza e de hábitos de actividade clandestina, sentem desconfiança em relaçom com os intelectuais e afastam-se deles: os intelectuais, dizem, provocam detençons pola sua acçom demasiado irreflectida!
Todos aqueles que conhecem um pouco o movimento sabem que nom há um social-democrata sensato que nom veia iá, finalmente, no trabalho artesanal umha verdadeira doença. Mas para que o leitor nom iniciado nom vá julgar que «construímos» artificialmente umha fase particular ou umha doença particular do movimento, recorreremos ao testemunho já umha vez citado. Que nos perdoem a extensom da citaçom.
«Se a passagem gradual a umha actividade prática mais ampla, escreve B-v no n.o 6 da Rab. Dielo, passagem que depende directamente do período geral de transiçom que atravessa o movimento operário russo, é um traço característico ...existe, no conjunto do mecanismo da revoluçom operária russa, outro traço nom menos interessante. Referimo-nos à escassez geral de forças revolucionárias aptas para a acçom 95, que se fai sentir nom somente em Petersburgo, mas em toda a Rússia. A medida que o movimento operário se intensifica, à medida que a massa operária se desenvolve em geral, à medida que as greves se tornam mais freqüentes, que a luita de massas dos operários se trava mais abertamente, o que fai recrudescer as perseguiçons governamentais, as prisons, os desterros e as deportaçons, esta escassez de forças revolucionárias de alta qualidade torna-se cada vez mais sensível e, indubitavelmente, nom deixa de influir na profundidade e no carácter geral do movimento. Muitas greves desenvolvem-se sem que as organizaçons revolucionárias exerçam sobre elas umha influência enérgica e directa ..., fai-se sentir a falta de folhas volantes de agitaçom e de literatura ilegal..., os círculos operários ficam sem agitadores. ...Ao mesmo tempo nota-se constantemente a falta de dinheiro. Numha palavra, o crescimento do movimento operário ultrapassa o crescimento e desenvolvimento das organizaçons revolucionárias. Os efectivos de revolucionários activos som demasiado insignificantes para concentrar nas suas maos a influência sobre toda a massa operária em agitaçom, para dar a todos os distúrbios ao menos umha sombra de harmonia e de organizaçom ...Os círculos dispersos, os revolucionários dispersos nom estám unidos, nom estám agrupados, nom constituem umha organizaçom única, forte e disciplinada, com partes metodicamente desenvolvidas. E depois de ter feito a reserva de que o aparecimento imediato de novos círculos, em substituiçom dos que fôrom destruídos, «prova unicamente a vitalidade do movimento... mas nom demonstra a existência de umha quantidade de militantes revolucionários plenamente aptos», o autor conclui: «A falta de preparaçom prática dos revolucionários de Petersburgo reflecte-se também nos resultados do seu trabalho. Os últimos processos, particulartnentt: dos grupos de «Auto-emancipaçom» e «luita do Trabalho contra o Capital» 96 mostram claramente que um agitador jovem, que nom começa pormenorizadamente as condiçons do trabalho e, por conseqüência, da agitaçom numha fábrica determinada, que nom conheça os princípios da conspiraçom e que só tenha assimilado» (terá mesmo assimilado?) «as ideias gerais da social-democracia, pode trabalhar uns quatro, cinco ou seis meses. Depois vem a prisom, que provoca muitas vezes o desmoronamento de toda a organizaçom ou, polo menos, de umha parte dela. Cabe perguntar: pode um grupo trabalhar com êxito, com proveito, quando a sua existência está limitada a alguns meses? É evidente que os defeitos das organizaçons existentes nom podem ser atribuídos inteiramente ao período de transiçom ...é evidente que a quantidade, e sobretudo a qualidade, dos efectivos das organizaçons activas desempenham aqui um papel de nom pouca importáncia, e a tarefa primordial dos nossos social-democratas ...deve consistir em unificar realmente as organizaçons, com umha selecçom rigorosa dos seus membros.»
b) O trabalho artesanal e o economismo
Devemos agora deter-nos numha questom que certamente já se pujo a todos os leitores: pode estabelecer-se umha relaçom entre este trabalho artesanal, como doença de crescimento, que afecta todo o movimento, e o «economismo», como umha das tendências da social-democracia russa? Pensamos que sim. A falta de preparaçom prática, a falta de habilidade no trabalho de organizaçom som, com efeito, cousas comuns a todos nós, mesmo a aqueles que, desde o início, mantiveram inflexivelmente o ponto de vista do marxismo revolucionário. É certo que ninguém poderia lançar à cara dos práticos esta falta de preparaçom por si só. Mas, além da falta de preparaçom, o conceito «trabalho artesanal» supom também outra cousa: supom o reduzido alcance de todo o trabalho revolucionário em geral, o nom compreender que com base neste trabalho de vistas estreitas nom se pode constituir umha boa organizaçom de revolucionários, e, por último —e isto é o principal— supom tentativas para justificar esta estreiteza de vistas e para a erigir numha «teoria» particular, isto é, supom o culto da espontaneidade também neste campo. E mal se manifestárom tais tentativas, tornou-se evidente que o trabalho artesanal está relacionado com o «economismo» e que nom nos libertaremos da estreiteza no nosso trabalho de organizaçom se nom nos libertarmos do «economismo» em geral (quer dizer, de umha concepçom estreita tanto da teoria do marxismo como do papel da social-democracia e das suas tarefas políticas). E essas tentativas fôrom observadas em duas direcçons. Uns começárom a dizer que a massa operária nom tinha formulado ainda, ela própria, tarefas políticas tam amplas e tam combativas como aquelas que lhe «impunham» os revolucionários, que deve ainda luitar por reivindicaçons políticas imediatas, travar «uma luita económica contra os patrons e o governo» 97 (e a esta luita «acessível» ao movimento de massas corresponde, naturalmente, umha organizaçom «acessível» mesmo à juventude menos preparada). Outros, alheios a todo o «gradualismo», começárom a dizer que se podia e se devia «fazer a revoluçom política», mas que, para isso, nom havia qualquer necessidade de criar umha forte organizaçom de revolucionários que educasse o proletariado numha luita firme e tenaz; que para isso era suficiente agarrarmos todos no pau já conhecido e «acessível». Falando sem alegorias: que organizássemos a greve geral 98 ou estimulássemos o processo do movimento operário «adormecido», com um «terror excitante» 99. Estas duas tendências, a oportunista e a «revolucionarista», capitulam perante o trabalho artesanal imperante, nom acreditam na possibilidade de se libertar dele, nom compreendem a nossa primeira e mais urgente tarefa prática: criar umha organizaçom de revolucionários capaz de dar à luita política energia, firmeza e continuidade.
Acabamos de citar as palavras de B-v: «O crescimento do movimento operário ultrapassa o crescimento e desenvolvimento das organizaçons revolucionárias.» Esta «valiosa informaçom de um observador directo» (comentário da Redacçom da Rabótcheie Dielo ao artigo de B-v) tem para nós um duplo valor. Demonstra que tínhamos razom ao considerar que a causa fundamental da crise que a social-democracia russa atravessa actualmente reside no atraso dos dirigentes («ideólogos», revolucionários, social-democratas) em relaçom com o ascenso espontáneo das massas. Demonstra que todo o palavreado dos autores da carta «economista» (no n.º 12 do Iskra), B. Kritchévski e Martínov, sobre o perigo de minimizar a importáncia do elemento espontáneo, da cinzenta luita quotidiana, sobre a táctica-processo, etc., som precisamente umha defesa e umha exaltaçom do trabalho artesanal.
Essa gente que nom pode pronunciar a palavra «teórico» sem um aceno desdenhoso, que chama «sentido da vida» à sua prosternaçom perante a falta de preparaçom para a vida e perante a falta de desenvolvimento, mostram de facto que nom compreendem as nossas tarefas práticas mais imperiosas. Às pessoas que ficárom para trás gritam: «Marcade passo! nom vos adiantedes!» Aqueles a quem falta energia e iniciativa no trabalho de organizaçom, a quem faltam «planos» para organizar ampla e ousadamente o trabalho, falam da «táctica-processo»! O nosso pecado capital consiste em rebaixar as nossas tarefas políticas e de organizaçom ao nível dos interesses imediatos, «tangíveis», «concretos» da luita económica quotidiana. Mas continuam a cantar-nos: há que imprimir à própria luita económica um carácter político! Repetimos: isto é literalmente o mesmo «sentido da vida» que demonstrava possuir a personagem da epopeia popular que gritava, ao passar um enterro: «Oxalá tenhais sempre algo que levar!»
Recordade a incomparável presunçom, verdadeiramente digna de Narciso, com a qual estes sábios ensinavam Plekhánov: «Aos círculos operários nom som acessíveis em geral (sic!) as tarefas políticas no sentido real, prático desta palavra, isto é, no sentido de umha luita prática, conveniente e eficaz por reivindicaçons políticas» (Resposta da Redacçom da «R. D.», p. 24). Há círculos e círculos, senhores!. A um círculo de «artesaos» nom som, por certo, acessíveis as tarefas políticas, enquanto nom reconhecer o carácter artesanal do seu trabalho e dele nom se livrar. Mas se, além disso, esses artesaos estám enamorados dos seus métodos, se escrevem sempre em itálico a palavra «prático» e se imaginam que a prática exige que eles rebaixem as suas tarefas ao nível de compreensom das camadas mais atrasadas das massas, entom, evidentemente, estes artesaos som incuráveis e, com efeito, as tarefas políticas som-lhes em geral inacessíveis. Mas, para um círculo de corifeus como Alexéieve Míchkine, Khaltúrine e Jeliábov, som acessíveis as tarefas políticas no sentido mais real, mais prático do termo, precisamente porque, e no grau em que, a sua propaganda ardente encontra eco na massa, que desperta espontaneamente, porque a sua fervente energia é secundada e apoiada pola energia da classe revolucionária. Plekhánov tinha mil vezes razom quando nom só indicou qual era esta classe revolucionária, nom só demonstrou que era inevitável e iniludível o seu despertar espontáneo, mas colocou mesmo aos «círculos operários» umha elevada e grandiosa tarefa política. E vós invocais o movimento de massas que surgiu desde entom para rebaixar esta tarefa, para reduzir a energia e o alcance da actividade dos «círculos operários». Que é isto senom egolatria do artesao enamorado dos seus métodos? Vangloriades-vos do vosso espírito prático e nom vedes o facto conhecido por todo o militante pratico russo: que milagres pode fazer, na obra revolucionária, nom só a energia de um círculo, mas mesmo a energia de um único indivíduo. Ou pensais que no nosso movimento nom podem existir os corifeus que existírom na década de 70? Por que razom? Porque estamos pouco preparados? Mas preparamo-nos, prepararemo-nos e estaremos preparados! É verdade que a água estagnada da «luita económica contra os patrons e governo» criou entre nós, infelizmente, limo, aparecêrom pessoas que se pugérom de joelhos adorando a espontaneidade e que contemplam religiosamente (segundo a expressom de Plekhánov) o «traseiro» do proletariado russo. Mas saberemos desembaraçar-nos deste limo. É precisamente agora que o revolucionário russo, guiado por umha teoria verdadeiramente revolucionária, apoiando-se numha classe verdadeiramente revolucionária, que desperta espontaneamente, pode finalmente –finalmente!– levantar-se em toda a sua estatura e desenvolver todas as suas forças de gigante. Para isso, só é necessário que na massa dos práticos, na massa ainda mais extensa dos que sonham com o trabalho prático já desde os bancos da escola, qualquer tentativa de rebaixar as nossas tarefas políticas e o alcance do nosso trabalho de organizaçom seja acolhida com troça e desprezo. E estejam certos, senhores, conseguiremo-lo!
No artigo Por onde Começar? escrevi contra a Rabótcheie Dielo: «Em 24 horas pode-se modificar a táctica de agitaçom nalgum problema especial, a táctica de realizaçom de algum pormenor de organizaçom do partido, mas mudar, nom digo em 24 horas, mas em 24 meses, as suas concepçons sobre o problema de saber se é necessária, em geral, sempre e absolutamente, a organizaçom de combate e a agitaçom política entre as massas, é cousa que só podem fazer pessoas sem princípios.» A Rabótcheie Dielo responde: «Esta acusaçom do Iskra, a única que pretende estar baseada na realidade, carece em absoluto de fundamento. Os leitores da R. Dielo sabem muito bem que, desde o princípio, nom só exortamos à agitaçom política, sem esperar que aparecesse o Iskra» ... (dizendo ao mesmo tempo que, nom só aos círculos operários, «mas nem mesmo sequer ao movimento operário de massas se pode pôr como primeira tarefa política o derrubamento do absolutismo», mas somente a luita por reivindicaçons políticas imediatas, e que «as reivindicaçons imediatas se tornam acessíveis às massas depois de umha ou, quando muito, várias greves») ...«mas que também com as nossas publicaçons editadas no estrangeiro proporcionamos aos camaradas que actuam na Rússia os únicos materiais de agitaçom política social-democrata (e, nestes únicos materiais, nom só praticárom com a maior amplitude a agitaçom política exclusivamente no terreno da luita económica, mas ainda concluírom, enfim, que esta agitaçom limitada «é a mais amplamente aplicável». E nom reparam, senhores, que a sua argumentaçom demonstra precisamente a necessidade do aparecimento do lskra –dado o carácter destes materiais únicos– e a necessidade da luita do Iskra contra a Rabótcheie Dielo? )... «Por Outro lado, a nossa actividade editorial preparava na prática a unidade táctica do partido...» (a unidade de crer que a táctica é o processo de crescimento das tarefas do partido, que crescem ao mesmo tempo que este? Que rica unidade!)... «e, por isso mesmo, tornava possível criar umha «organizaçom de combate», para cuja formaçom a Uniom fijo tudo o que era acessível a umha organizaçom residente no estrangeiro» (R. D., n.º 10, p. 15). Vá tentativa para sair do embaraço! Que figérom tudo quanto lhes era acessível, é cousa que nunca pensei em negar. O que afirmei e afirmo é que os limites do que lhes é «acessível» se estreitam pola miopia das suas concepçons. É ridículo que se fale de «organizaçom de combate» para luitar por «reivindicaçons políticas imediatas» ou para «a luita económica contra os patrons e o governo».
Mas, se o leitor quiser ver as pérolas da atracçom «economista» polo trabalho artesanal, terá de passar naturalmente da ecléctica e vacilante Rab. Dielo ao conseqüente e decidido Rabo Misl. «Duas palavras agora sobre a chamada intelectualidade revolucionária –escrevia R. M. no Suplemento separado, p. 13. É certo que mais de umha vez demonstrou na prática que está totalmente disposta «a entrar na luita decisiva com o tsarismo». Unicamente, o mal está em que, perseguida sem tréguas pola polícia política, a nossa intelectualidade revolucionária considerava esta luita com a polícia política como umha luita política contra a autocracia. É por isso que a pergunta: «Onde buscar forças para a luita contra a autocracia?» continua ainda sem resposta por parte deles.»
Nom é verdade que é incomparável este olímpico desprezo pola luita contra a polícia, sentido por um admirador (no pior sentido do termo) do movimento espontáneo? Está disposto a justificar a nossa falta de habilidade para o trabalho conspirativo dizendo que, com o movimento espontáneo de massas, para nós nom tem importáncia, no fundo, a luita contra a polícia política!! Muito poucos subscreverám esta conclusom monstruosa, tam dolorosamente som sentidas por todos as deficiências das nossás organizaçons revolucionárias. Mas se Martínov, por exemplo, nom a subscreve, é unicamente porque nom sabe ir até o fim das suas teses ou nom tem a coragem de o fazer. Com efeito, acaso umha «tarefa» como a de que as massas apresentem reivindicaçons concretas, que prometam resultados tangíveis, exige umha preocupaçom especial para criar umha organizaçom de revolucionários sólida, centralizada e combativa? nom realiza também esta «tarefa» umha massa que, de maneira nengumha, «luita contra a polícia política»? Mais ainda, seria realizável esta tarefa se, –além de um reduzido número de dirigentes, nom se encarregassem de a cumprir também (na sua grande maioria) operários que som absolutamente incapazes de «luitar contra a polícia política»? Estes operários, os homens médios da massa, som capazes de dar provas de umha energia e umha abnegaçom gigantescas numha greve, num combate de rua com a polícia e a tropa, podem (e som os únicos que podem) decidir o resultado de todo o nosso movimento, mas precisamente a luita contra a polícia política exige qualidades especiais, exige revolucionários profissionais. E nós nom nos devemos só preocupar com que a massa «apresente» reivindicaçons concretas, mas também com que a massa de operários «destaque», em número cada vez maior, estes revolucionários profissionais. Eis-nos, assim, chegados ao problema das relaçons entre a organizaçom de revolucionários profissionais e o movimento puramento operário. A esta questãq. pouco desenvolvida na literatura, dedicamos nós, «os políticos», muito tempo em conversas e discussons com camaradas que tenhem mais ou menos tendência para o «economismo». Vale a pena determo-nos especialmente nela. Mas primeiro terminemos com outra citaçom a ilustraçom da nossa tese sobre a relaçom entre o trabalho artesanal e o «economismo».
«O grupo «Emancipaçom do Trabalho» –dizia o senhor N. N. na sua Resposta –exige que se luite directamente contra o governo, sem pensar onde está a força material necessária para esta luita, sem indicar os caminhos que ela deve seguir.» E, sublinhando estas últimas palavras, o autor faz, a propósito da palavra «caminhos», a seguinte observaçom: «Esta circunstáncia nom pode ser explicada por fins conspirativos, porque no programa nom se trata de umha conjura, mas de um movimento de massas. E as massas nom podem avançar por caminhos secretos. Será, por acaso, possível umha greve secreta? Será possível realizar em segredo umha manifestaçom ou apresentar umha petiçom em segredo?» (Vademecum, p. 59.) O autor abordou de perto tanto a «força material» (os organizadores das greves e das manifestaçons) como os «caminhos» polos quais esta luita tem que seguir; mas permaneceu, contudo, confuso e perplexo, porque se «prosterna» perante o movimento de massas, quer dizer, considera-o como umha cousa que nos exime da nossa actividade, da actividade revolucionária, e nom como umha cousa que deve encorajar e estimular a nossa actividade revolucionária. Umha greve secreta é impossível para as pessoas que nela participam ou que com ela tenham relaçom imediata. Mas, para a massa dos operários russos, esta greve pode ser (e é na maioria dos casos) «secreta», porque o governo terá o cuidado de cortar todas as comunicaçons com os grevistas, terá o cuidado de tornar impossível toda a difusom de notícias sobre a greve. E é aqui que já se torna necessária a «luita contra a polícia política», umha luita especial, umha luita que nunca poderá ser travada activamente por umha massa tam ampla como aquela que participa nas greves. Esta luita deve ser organizada, «segundo todas as regras da arte», por pessoas que tenham como profissom a actividade revolucionária. E o facto de as massas se terem integrado espontaneamente no movimento nom torna agora menos necessária a organizaçom desta luita. Polo contrário, a organizaçom torna-se, por este motivo, mais necessária, porque nós, os socialistas, faltaríamos às nossas obrigaçons directas perante as massas se nom soubéssemos impedir à polícia de tornar secreta (e se, por vezes, nom preparássemos nós próprios em segredo) qualquer greve ou manifestaçom. E saberemos fazê-lo precisamente porque as massas que despertam espontaneamente destacarám também do seu seio um número cada vez maior de «revolucionários profissionais» (desde que nom nos ocorra convidar os operários, em todos os tons, a continuar a marcar passo)
c) A organizaçom de operários e a organizaçom de revolucionários
[95] Todos os itálicos som nossos.
[96] Trata-se do Grupo de Operários para a Luita contra o Capital, organizado em Petersburgo na Primavera de 1899. O grupo foi formado por alguns operários e intelectuais, mas nom mantivo umha ligaçom estreita com o movimento operário de Petersburgo e pouco depois, após a prisom de quase todos os seus membros no Verao de 1899, foi liquidado. Polos seus pontos de vista, aproximava-se do «economismo». (N. Ed.)
[97] Rab. Misl e Rab. Dielo, em particular a Resposta a PIekhánov.
[98] Quem Fará a Revoluçom Política?, brochura publicada na Rússia, na compilaçom A luita Proletária, e reeditada polo Comité de Kiev.
[99] Renascimento do Revolucionarismo e Svoboda.